terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Cores de Almodóvar




As vezes imagino se diferente fosse...
O rubro sinestésico e, apenas isso, tonaliza umas das paredes da sala humildemente decorada. Como se fosse amarrada por uma criança em uma casa de bonecas, a cortina era de renda branca, feita à mão, acentuando, posteriormente, o mais belo disparate. A cena que não mais iria esquecer.
Em um canto, o rústico abajur de madeira e palha já aceso, fazia o reflexo vermelho fundir no igualmente quente sofá laranja. A perspectiva das cores, num apanhado descendente, terminava no chão de tacos claros, o meu cúmplice.
Olho para a cozinha e de um ângulo oblíquo vejo que Flora, ao som de qualquer MPB, esbanjando prazer, nutrido também por uns goles de cerveja, de frente para a pia de mármore, aprontava qualquer coisa. De um ângulo alto, imagino tomates sendo lavados, um a um, passando-lhes a palma da mão sob água corrente e os separando para o digno momento do séquito.
Volver.
O rebuliço havia começado há pouco. Poucos não eram, porém. Com a sala cheia e por isso, jogado espontaneamente no chão, assistia como um cinéfilo ansioso por sentar na frente e assim, ser o primeiro a ver a bela imagem; a ode da naturalidade.
Assisto o movimento pendular das pernas morenas que estavam inquietas e cruzadas. A esquerda sobre a direita e essa tocando piso de madeira, onde jaziam suas sandálias de couro. Seu cabelo longo, ondulado e negro era a moldura perfeita para os pequenos olhos castanho-escuros, nariz suavemente arrebitado e sorriso delirante.
De sua boca, numa sinédoque, saiam poemas em longas sentenças ao mesmo tempo em que gesticulava sinuosamente, como uma rendeira costurando a cortina. Balbuciava mais sorrisos. Jogava as madeixas para os lados. Contava mais prosa. Noutro pólo, seu pé direito tratava uma disputa inocente de gato e rato com a sandália. Os dedos rechonchudos tentavam falhamente segurar as alças de couro. A batalha se perpetuava a cada palavra.
Um retorno ascendente era impossível, petrificado estava. Como um voyeur, como Benigno contemplando Alicia, o que me restava era falar com ela.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Exu caveirinha e o fogo paulista.


Separadas apenas pelas águas da Guanabara, Alícia e Flora moravam em cidades diferentes. Têm quase a mesma idade. São amigas e irmãs havia mais de vinte e poucos anos. Uma casada e a outra solteira se encontravam com menos freqüência do que nas primaveras que antecederam o pseudocasório.

Flora, cumbuca assumida, pois para ela tampa não existia, preferia as cores vivas, estampas e roupas largas. Volta e meia, finalizava o look com um brinco – diga-se, maior que a genitália de Exu, pano rápido – e batom vermelho; para combinar com dono do tripé. Alícia, por sua vez, poligâmica enrustida, gostava das cores lisas, roupas justas e decote. Sempre acentuando suas curvas, outrora perfeitas, visando a próxima viagem ao exterior à procura do próximo marido.

Apesar das eventuais estrias, celulites e gorduras indesejadas, as duas se consideravam em forma. Há controvérsias. Uma pra mais, outra pra menos e vice-versa, diziam por aí...

Não chegam a ser altas, as duas também não podiam ser chamadas de baixinhas. Ambas morenas tinham o mesmo teor de melanina. Não precisavam de bronzeadores importados ou se besuntar com urucum diluído em suco de limão, coisa que Tiago, freqüentador assíduo da praia de Ipanema, adorava fazer...

Eis que dezembro chega. No verão, a cidade não remete a outra coisa a não ser a nudez! Repito: o Rio de Janeiro é um bom lugar pra correr com os peitos de fora e Alícia sabia bem disso. Explico.

O primeiro e último gole da cerveja mais gelada da cidade era convidativo em tempos de Tuvalu, urso polar e aquecimento global. Ainda mais ali, pertinho, na esquina...

Amigo das duas, Tiago, certa vez, querendo ficar bêbado tão rápido quanto van Gogh e Oscar Wilde, beberrões ferrenhos de absinto, fez sua arte, como os quadros e poemas dos boêmios, ao colocar umas pedras de gelo no levíssimo fogo paulista. Levou-a para a mesa do boteco de Tuvalu.

O treleléu das cucuias começa aí, entre o primeiro e o póstumo gole. As pedras mal derretiam. Copos eram virados, caretas surgiam junto com a embriagueis e mais goles de ouro líquido. O garçom, rindo como sempre, sob meia luz, já empilhava as cadeiras sobre as mesas quando os três saíram do bar.

Desvairada durante a via crusis de volta para casa da Flora, Alícia grita:

- Estou com calor, vou tirar a roupa! – arrancando a blusa ao mesmo tempo em que pegava galhos e folhas de qualquer jardim, numa tentativa falha de vestir-se como uma indiazinha correndo pela mata com as vergonhas de fora.

Flora e Tiago gargalhavam incessantemente.

Chegando, desprovida, claro, de qualquer peça acima da linha de cintura, Alícia se joga no chão e pronuncia.

- Fogo paulista é coisa do Diabo!

E devia ser mesmo...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Pirlimpimpim é a meninice, Monteiro Lobato e a escola.



Ao longo da vida sofri alguns impactos que moldaram minha personalidade de maneira irreversível. Estudar no Jardim Escola Pirlimpimpim foi um deles.

Acordei com disposição para escrever um daqueles poemas-confissão que só cogitava fazer quando o último naco de algodão adentrasse minha narina, podendo assim, comer capim pela raiz em paz.

Acomodei-me como de costume...

Folheando despretensiosamente uma revista quinzenal, uma foto me chama a atenção. Em preto e branco, um velho sujeito trajava um terno de linho, impecável. Como quem carrega um pente marrom, condor, masculino para bolso, seus cabelos grisalhos estavam perfeitamente penteados para trás. A sobrancelha e o bigode ficaram aos cuidados de Frida Kahlo e Adolf Hitler, respectivamente. Era Monteiro Lobato.

O babado é o seguinte: Como em qualquer fábula, as de Lobato apresentavam seres encantados, bichos falantes e situações inverossímeis. Numa delas, Emília, advertindo sobre a gravidade de uma eventual guerra das onças contra os moradores do sítio diz: “Não vai escapar ninguém! – nem tia Nastácia que tem carne preta”. Racismo! Esperneia conselho nacional de educação.

Pronto. O furdunço dos infernos está armado. Me abstenho.

A catarse me ocorre.

O sitio beira-rio, posteriormente rebatizado de Pirlimpimpim (nome de um especial comemorando os 100 anos do escriba, assim como o lançamento de um LP homônimo, com temas dos personagens do sítio) surge de uma estradinha de terra batida, sinuosa, seguindo as curvas da colina. No topo, um cata-vento. A sua volta pés de café aos montes. Vejo de lá, bem no centro, a casa em que estudei os bons anos da minha infância. O telhado triangular era vermelho como o barro, acima do portão imponente. As paredes eram brancas com cercas beges arredondadas dispostas, simetricamente, lado a lado a sua frente.

À esquerda existem dois campos. O verde daquela altura era ainda mais reluzente... Esplêndido.

O parquinho de madeira, para mim, gigante, era uma aglutinação de escorregador com casa de arvore. Atrás, a escada. Dos lados, um par de argolas para dar cambalhotas e um varal de ferro pros moleques se pendurarem. Tudo em azul, amarelo e vermelho, sob mais um tapete verde aonde Emílias, Pedrinhos, Narizinhos e Sacis podiam fazer estripulias, disputar corridas de pneu, pular corda, jogar amarelinha, brincar de pique-esconde, bater bola e fugir do Patricão. Sempre aos olhares sábios das professoras Sabugosas.

À direita, o mais lindo pomar. Jabuticabeiras, limoeiros, pitangueiras... Em abundância. Trepar nelas que nem uma macaca de carvão era brioso.

Beijinhos inocentes eram trocados debaixo de qualquer laranjeira.

Batalhas olímpicas eram travadas para capturar o saci. Com garrafas cheias de folhas nas mãos, os netos de dona benta desbravavam o vergel que, aos pequenos olhos, mais parecia uma selva, a procura da toca do preto com cachimbo de uma perna só. A imaginação vai além.

Em meio à sinfonia dos pássaros, escutávamos o grugrulejar do Quindim. O peru.

O Conselheiro não era burro. Era um pé-de-pano comedor ferrenho de capim.

Seu Poubel, sempre com as calças dobradas até o meio da canela, chinelos e inchada apoiada por cima dos ombros, cuidava do sitio como Barnabé. Tia Nilse, sempre sorrindo, cozinhava como Nastácia

Tia Jeanne era a Cuca, mas não roubava crianças desobedientes. Tia Jeanne era Dona Benta, mas não tinha cabelos brancos.

E eu?

Vivia minha própria fábula.

Abraços.

domingo, 14 de novembro de 2010

Mosaico do rio.


Peças pequenas embutidas formam um desenho, um mosaico. A palavra grega é a mesma que deu a origem a música que, por sua vez, significa próprio das musas.

Desdenhou as peças. Qualquer coisa junta poder ser musiva – findou.

Como a chuva pode ser tão linda... Cada peça, cada musa, cada pingo, cada um com sua particularidade, vive uma epopéia até o derradeiro momento de sua precipitação. – refletiu, dando uma baforada num cigarro de maconha.

Pluft! Eis que a morena de cabelos negros, ondulados e longos mergulha nua. As ondas formadas de maneira sublime, de certo, em total harmonia, são constantes e eqüidistantes. Uma depois da outra. Uma mais bonita que a outra.

Chocam-se, mas não se separam. Pelo contrário. Arranjam-se de tal maneira que algo maior e mais belo é criado.

Porém, infindáveis são. Já não há mais espaço pra todas. Antes musas, agora plebéia. Uma só.

Pensou tanto que o seu silêncio foi delirante.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vai trabalhar, vagabundo.

Ainda é manhã. Mesmo com a boca seca, com sede e uma leve dor de cabeça, devido a boemia desenfreada do dia anterior, havia tempos que não acordava tão bem disposto, quanto tão cedo. Abro a porta, mas não saio. Imagino que a alma caridosa, a senhora do quatrocentos e um, depois de sua caminhada matinal, fortuitamente, pôs o jornal no tapete da minha porta.

Espremi as laranjas, parti o mamão tirando-lhe as sementes com todo cuidado. Torrei o pão e fritei os ovos, mexidos... Comi, empanturrei-me!

Acendi um cigarro. Sentia o seu aroma. Aspirava fundo sua fumaça, saboreando-a na boca e soltando-a pelo nariz. Li o jornal de cabo a rabo. Demorei umas duas horas.

Dei uma bela cagada. Tomei banho, escovei os dentes.

Fui pra rua ainda melhor do que havia acordado.

Trotando pela calçada, pensava, então, que eu tinha muito afazeres...




sábado, 30 de outubro de 2010

Para mim, indiferente.

A linha é tênue entre a paciência e o desespero.

Olho pro relógio seguidamente, mas desta vez não há o onomatopéia odiado por todos os operários.

Eis que a inflexão sonora me impulsiona, de certo, pra baixo, numa ladeira infinita...

Em meio a tantos devaneios, não conseguia entender como sorrisos límpidos sobressaiam numa face empoeirada, corpos fétidos com pés em brasas.

Tinha me esquecido dos braços, que de tanto trabalhar, mais tarde, virariam abraços.

Ao contrário de todos eles, quando a sirene disparar, a solidão me espera.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Reciprocidade

Se pudéssemos ouvir nossos olhares, saberíamos...

paralelamente, em sentidos opostos,

há o mesmo brilho,

a mesma intensidade,

a mesma verdade,

absolutamente a mesma música.

deixa-me te exaltar aos olhos do universo,

aos meus ouvidos...

Vovô



A primeira vista era museu de cachaças. Olhando atentamente havia não mais que cinco pingas diferentes, eram muitas garrafas empoeiradas. Logo abaixo das infinitas prateleiras, num retrato fiel do que posteriormente descobriria, arames entrelaçados formavam um varal. Estendiam-se ali, salsichas, lingüiças e calabresas. Se tratando de uma mercearia, não poderiam faltar utensílios básicos. Caixas de fósforos, cigarros, copos e cerveja com posicionavam o retrato. O colorido ficava por conta dos biscoitos, balas e pirulitos, em primeiro plano, no balcão aonde o aguardava só.


Não passara muito tempo até o dono recepcionar-me. Saiu dos fundos, passando sob uma porta estreita. Em frente a ela, a sinuca ainda jazia verde. As botinas, claro, ainda com um pouco de barro molhado anunciavam sua chegada. As calças perfeitamente encardidas engoliam metade da camisa de botão. Por fim, um boné. Colocado da maneira que lhe coube, parecia-me uma coroa.


Sentia que um cumprimento caloroso me aguardava. Não foi diferente. Os braços abertos eram levados por um sorriso largo. Abraçou-me. Ajeitou os óculos, deu a volta no balcão e me ofereceu algo pra beber. Não poderia fazer tal desfeita. Era seu reino.

Pedi uma cerveja. Catou qualquer garrafa mais gelada, levou a pia e abriu com uma faca, servindo-lhe ali, como abridor. Sentou-se em minha frente, separados pelo colorido, percebi que estava um pouco ofegante.


- o senhor esta bem? – perguntei preocupadamente.

- oitenta e um anos pesam, mas nunca me senti tão bem. Respondeu com os olhos brilhando.


Me contou que uma de suas vacas estava prenha e prestes a parir. Morava em baixo da mercearia, a porta de entrada de um enorme sitio. Continuou:

- subi o pasto atrás da vaca. não deu outra, estava parindo, deitada, sofrendo...se não fosse por minha teimosia, teria perdido as duas – disse, ao mesmo tempo que arrancava um naco das lingüiças.


Entre um gole e outro, sorri. Balbuciei qualquer coisa, mas fui interrompido espirituosamente.

- descendo, sabe, esses capins enganam... pisei numa vala, rolei pasto abaixo ate parar no córrego que ali tinha. Aproveitei que estava calor, arranquei minha roupa pra tomar um banho de rio. Pelado!

As gargalhadas soaram-me de maneira sublime, tal qual aquele momento pra ele. Entendi que o diminutivo empregado, Zé, não era de longe pejorativo. Seu Zé, como por todos é conhecido, alem de Zé, é Zé Maria.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

se seu blog fosse um livro eu brigaria pela orelha assim...

O primeiro passo é sempre exorcizar próprios demônios.
Eis o Lucas agora. Poeta, por não o ser.
Um soco no estômago.
Uma voz inconveniente que faria existencialistas sorrirem.
Até eu sorri por saber que a vida, mesmo sendo dura, nos dá um acidente feliz.
O acaso de ter na vida um acidente como o Lucas.

Por Guilherme Façanha.

Lucas não gosta de pé.

Pé, por que pé tem chulé!
Envergonhado, porém, sem ter coragem de olhá-la nos olhos, se da conta...
São seus pés que agüentam o peso da sua alma,

esteiam sua anca,

sustentam teus seios.
Eles são a metáfora perfeita do tato,

o paradoxo do olhar.
Foram eles que a trouxeram aqui.

Alabama song

Gotas esparsas abriram a noite. Como não deveria ser, é inevitável. Estamos a mercê do tempo. Posteriormente, aprendi a gostar delas...


Caixas de som amontoavam-se ante a animosidade da platéia. As cores que, naquele momento nada representavam a sustentabilidade, piscavam. O verde, o vermelho, o azul e o amarelo dançavam conforme o barulho. Já inebriado, fui entorpecer meus sentidos. Tudo fica mais palatável e digerível desta forma. Lucas e a reverberação nunca tiveram tantos problemas.


A falta de espaço, diminuída ainda mais pela dança, ao mesmo tempo, sexy, espalhafatosa e vulgar, não o deixava correr pro bar mais próximo. Show me the way to the next whisky bar, Oh, don't ask why, Oh, don't ask why. Sussurrava Jim Morrison.


Estava completamente perdido. Mas não estava só. A reciprocidade começava ali, compartilhando o estranhamento.


Resmungou, a priori, qualquer coisa estúpida, antes de jorrar sua indignação quanto, quanto... Estava bem pertinho do bar, foi pegar a bendita cerveja.


Duas latinhas eram-lhes suficiente. Eram-lhe, no singular. Qualquer coisa estúpida fez desaparecer qualquer reciprocidade. A trilha sonora de uma epopéia circense não me parecia mais propicia.






Rubro




























Planos sensoriais se convergem.

Unicidade única.

Um cheiro, uma cor, um som, um objeto.

uma pessoa talvez...

Não há nada mais sinestésico que o vermelho.

Ruborização!

Não mais que segundos

Abrira. Fechara... Novamente aberta, Lucas percebeu que depois de um ínfimo momento escuro, jaziam duas metades. Límpidas, claras.
Não era ilusão.
Aventou a possibilidade: partir-se-ia ao meio? Não sabia, nem ao menos, se passaria meia pessoa de cada vez.
Queria gritar, não faltava vontade, não faltava desejo. As meias verdades, as meias mentiras convergir-se-iam nunca mais.
Não seria mais ele.
Em um lapso de loucura, saudável loucura, constatou que as metades, paradoxalmente, eram distintas e, nenhuma, perfeitamente bela.
Seu coração estava míope.
Os olhos dela eram esplêndidos.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Esse foi o meu prólogo

Permita-me ser-lhe franco neste começo. Você não vai gostar de mim, e, com o tempo, passará a gostar menos ainda.

Puritano, sujar-lhe-ei. O mais promíscuo dos julgamentos será jorrado. Todo o tempo.

Não me vanglorio, é patológico, prazeroso.

Não fique desrruborizado. Poderá gostar das palavras mais sórdidas e fétidas, que entrarão pelas suas narinas e causando-lhe náuseas. Não faça isso.

Inescrupuloso, também serei sujo. Controle-se epilogamente ao meu ponto final. Quando inebriadamente pensar, imagine a sua maior decepção abalizada em minha cara.E vão pensar.

Quero que sintam o que eu senti e perguntem-se: quão profundo eu fui ? existe um muro de miséria intelectual intransponível?

Jamais saberão

Vocês vão gostar de mim.