
Ao longo da vida sofri alguns impactos que moldaram minha personalidade de maneira irreversível. Estudar no Jardim Escola Pirlimpimpim foi um deles.
Acordei com disposição para escrever um daqueles poemas-confissão que só cogitava fazer quando o último naco de algodão adentrasse minha narina, podendo assim, comer capim pela raiz em paz.
Acomodei-me como de costume...
Folheando despretensiosamente uma revista quinzenal, uma foto me chama a atenção. Em preto e branco, um velho sujeito trajava um terno de linho, impecável. Como quem carrega um pente marrom, condor, masculino para bolso, seus cabelos grisalhos estavam perfeitamente penteados para trás. A sobrancelha e o bigode ficaram aos cuidados de Frida Kahlo e Adolf Hitler, respectivamente. Era Monteiro Lobato.
O babado é o seguinte: Como em qualquer fábula, as de Lobato apresentavam seres encantados, bichos falantes e situações inverossímeis. Numa delas, Emília, advertindo sobre a gravidade de uma eventual guerra das onças contra os moradores do sítio diz: “Não vai escapar ninguém! – nem tia Nastácia que tem carne preta”. Racismo! Esperneia conselho nacional de educação.
Pronto. O furdunço dos infernos está armado. Me abstenho.
A catarse me ocorre.
O sitio beira-rio, posteriormente rebatizado de Pirlimpimpim (nome de um especial comemorando os 100 anos do escriba, assim como o lançamento de um LP homônimo, com temas dos personagens do sítio) surge de uma estradinha de terra batida, sinuosa, seguindo as curvas da colina. No topo, um cata-vento. A sua volta pés de café aos montes. Vejo de lá, bem no centro, a casa em que estudei os bons anos da minha infância. O telhado triangular era vermelho como o barro, acima do portão imponente. As paredes eram brancas com cercas beges arredondadas dispostas, simetricamente, lado a lado a sua frente.
À esquerda existem dois campos. O verde daquela altura era ainda mais reluzente... Esplêndido.
O parquinho de madeira, para mim, gigante, era uma aglutinação de escorregador com casa de arvore. Atrás, a escada. Dos lados, um par de argolas para dar cambalhotas e um varal de ferro pros moleques se pendurarem. Tudo em azul, amarelo e vermelho, sob mais um tapete verde aonde Emílias, Pedrinhos, Narizinhos e Sacis podiam fazer estripulias, disputar corridas de pneu, pular corda, jogar amarelinha, brincar de pique-esconde, bater bola e fugir do Patricão. Sempre aos olhares sábios das professoras Sabugosas.
À direita, o mais lindo pomar. Jabuticabeiras, limoeiros, pitangueiras... Em abundância. Trepar nelas que nem uma macaca de carvão era brioso.
Beijinhos inocentes eram trocados debaixo de qualquer laranjeira.
Batalhas olímpicas eram travadas para capturar o saci. Com garrafas cheias de folhas nas mãos, os netos de dona benta desbravavam o vergel que, aos pequenos olhos, mais parecia uma selva, a procura da toca do preto com cachimbo de uma perna só. A imaginação vai além.
Em meio à sinfonia dos pássaros, escutávamos o grugrulejar do Quindim. O peru.
O Conselheiro não era burro. Era um pé-de-pano comedor ferrenho de capim.
Seu Poubel, sempre com as calças dobradas até o meio da canela, chinelos e inchada apoiada por cima dos ombros, cuidava do sitio como Barnabé. Tia Nilse, sempre sorrindo, cozinhava como Nastácia
Tia Jeanne era a Cuca, mas não roubava crianças desobedientes. Tia Jeanne era Dona Benta, mas não tinha cabelos brancos.
E eu?
Vivia minha própria fábula.
Abraços.
Que lindo Lucas.
ResponderExcluirA cada detalhe descrito, me sinto refletida em suas Palavras!
Bastante conteúdo, em suas cretinices.
Começando frequentar seu blog!
Bjos