terça-feira, 23 de novembro de 2010

Exu caveirinha e o fogo paulista.


Separadas apenas pelas águas da Guanabara, Alícia e Flora moravam em cidades diferentes. Têm quase a mesma idade. São amigas e irmãs havia mais de vinte e poucos anos. Uma casada e a outra solteira se encontravam com menos freqüência do que nas primaveras que antecederam o pseudocasório.

Flora, cumbuca assumida, pois para ela tampa não existia, preferia as cores vivas, estampas e roupas largas. Volta e meia, finalizava o look com um brinco – diga-se, maior que a genitália de Exu, pano rápido – e batom vermelho; para combinar com dono do tripé. Alícia, por sua vez, poligâmica enrustida, gostava das cores lisas, roupas justas e decote. Sempre acentuando suas curvas, outrora perfeitas, visando a próxima viagem ao exterior à procura do próximo marido.

Apesar das eventuais estrias, celulites e gorduras indesejadas, as duas se consideravam em forma. Há controvérsias. Uma pra mais, outra pra menos e vice-versa, diziam por aí...

Não chegam a ser altas, as duas também não podiam ser chamadas de baixinhas. Ambas morenas tinham o mesmo teor de melanina. Não precisavam de bronzeadores importados ou se besuntar com urucum diluído em suco de limão, coisa que Tiago, freqüentador assíduo da praia de Ipanema, adorava fazer...

Eis que dezembro chega. No verão, a cidade não remete a outra coisa a não ser a nudez! Repito: o Rio de Janeiro é um bom lugar pra correr com os peitos de fora e Alícia sabia bem disso. Explico.

O primeiro e último gole da cerveja mais gelada da cidade era convidativo em tempos de Tuvalu, urso polar e aquecimento global. Ainda mais ali, pertinho, na esquina...

Amigo das duas, Tiago, certa vez, querendo ficar bêbado tão rápido quanto van Gogh e Oscar Wilde, beberrões ferrenhos de absinto, fez sua arte, como os quadros e poemas dos boêmios, ao colocar umas pedras de gelo no levíssimo fogo paulista. Levou-a para a mesa do boteco de Tuvalu.

O treleléu das cucuias começa aí, entre o primeiro e o póstumo gole. As pedras mal derretiam. Copos eram virados, caretas surgiam junto com a embriagueis e mais goles de ouro líquido. O garçom, rindo como sempre, sob meia luz, já empilhava as cadeiras sobre as mesas quando os três saíram do bar.

Desvairada durante a via crusis de volta para casa da Flora, Alícia grita:

- Estou com calor, vou tirar a roupa! – arrancando a blusa ao mesmo tempo em que pegava galhos e folhas de qualquer jardim, numa tentativa falha de vestir-se como uma indiazinha correndo pela mata com as vergonhas de fora.

Flora e Tiago gargalhavam incessantemente.

Chegando, desprovida, claro, de qualquer peça acima da linha de cintura, Alícia se joga no chão e pronuncia.

- Fogo paulista é coisa do Diabo!

E devia ser mesmo...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Pirlimpimpim é a meninice, Monteiro Lobato e a escola.



Ao longo da vida sofri alguns impactos que moldaram minha personalidade de maneira irreversível. Estudar no Jardim Escola Pirlimpimpim foi um deles.

Acordei com disposição para escrever um daqueles poemas-confissão que só cogitava fazer quando o último naco de algodão adentrasse minha narina, podendo assim, comer capim pela raiz em paz.

Acomodei-me como de costume...

Folheando despretensiosamente uma revista quinzenal, uma foto me chama a atenção. Em preto e branco, um velho sujeito trajava um terno de linho, impecável. Como quem carrega um pente marrom, condor, masculino para bolso, seus cabelos grisalhos estavam perfeitamente penteados para trás. A sobrancelha e o bigode ficaram aos cuidados de Frida Kahlo e Adolf Hitler, respectivamente. Era Monteiro Lobato.

O babado é o seguinte: Como em qualquer fábula, as de Lobato apresentavam seres encantados, bichos falantes e situações inverossímeis. Numa delas, Emília, advertindo sobre a gravidade de uma eventual guerra das onças contra os moradores do sítio diz: “Não vai escapar ninguém! – nem tia Nastácia que tem carne preta”. Racismo! Esperneia conselho nacional de educação.

Pronto. O furdunço dos infernos está armado. Me abstenho.

A catarse me ocorre.

O sitio beira-rio, posteriormente rebatizado de Pirlimpimpim (nome de um especial comemorando os 100 anos do escriba, assim como o lançamento de um LP homônimo, com temas dos personagens do sítio) surge de uma estradinha de terra batida, sinuosa, seguindo as curvas da colina. No topo, um cata-vento. A sua volta pés de café aos montes. Vejo de lá, bem no centro, a casa em que estudei os bons anos da minha infância. O telhado triangular era vermelho como o barro, acima do portão imponente. As paredes eram brancas com cercas beges arredondadas dispostas, simetricamente, lado a lado a sua frente.

À esquerda existem dois campos. O verde daquela altura era ainda mais reluzente... Esplêndido.

O parquinho de madeira, para mim, gigante, era uma aglutinação de escorregador com casa de arvore. Atrás, a escada. Dos lados, um par de argolas para dar cambalhotas e um varal de ferro pros moleques se pendurarem. Tudo em azul, amarelo e vermelho, sob mais um tapete verde aonde Emílias, Pedrinhos, Narizinhos e Sacis podiam fazer estripulias, disputar corridas de pneu, pular corda, jogar amarelinha, brincar de pique-esconde, bater bola e fugir do Patricão. Sempre aos olhares sábios das professoras Sabugosas.

À direita, o mais lindo pomar. Jabuticabeiras, limoeiros, pitangueiras... Em abundância. Trepar nelas que nem uma macaca de carvão era brioso.

Beijinhos inocentes eram trocados debaixo de qualquer laranjeira.

Batalhas olímpicas eram travadas para capturar o saci. Com garrafas cheias de folhas nas mãos, os netos de dona benta desbravavam o vergel que, aos pequenos olhos, mais parecia uma selva, a procura da toca do preto com cachimbo de uma perna só. A imaginação vai além.

Em meio à sinfonia dos pássaros, escutávamos o grugrulejar do Quindim. O peru.

O Conselheiro não era burro. Era um pé-de-pano comedor ferrenho de capim.

Seu Poubel, sempre com as calças dobradas até o meio da canela, chinelos e inchada apoiada por cima dos ombros, cuidava do sitio como Barnabé. Tia Nilse, sempre sorrindo, cozinhava como Nastácia

Tia Jeanne era a Cuca, mas não roubava crianças desobedientes. Tia Jeanne era Dona Benta, mas não tinha cabelos brancos.

E eu?

Vivia minha própria fábula.

Abraços.

domingo, 14 de novembro de 2010

Mosaico do rio.


Peças pequenas embutidas formam um desenho, um mosaico. A palavra grega é a mesma que deu a origem a música que, por sua vez, significa próprio das musas.

Desdenhou as peças. Qualquer coisa junta poder ser musiva – findou.

Como a chuva pode ser tão linda... Cada peça, cada musa, cada pingo, cada um com sua particularidade, vive uma epopéia até o derradeiro momento de sua precipitação. – refletiu, dando uma baforada num cigarro de maconha.

Pluft! Eis que a morena de cabelos negros, ondulados e longos mergulha nua. As ondas formadas de maneira sublime, de certo, em total harmonia, são constantes e eqüidistantes. Uma depois da outra. Uma mais bonita que a outra.

Chocam-se, mas não se separam. Pelo contrário. Arranjam-se de tal maneira que algo maior e mais belo é criado.

Porém, infindáveis são. Já não há mais espaço pra todas. Antes musas, agora plebéia. Uma só.

Pensou tanto que o seu silêncio foi delirante.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vai trabalhar, vagabundo.

Ainda é manhã. Mesmo com a boca seca, com sede e uma leve dor de cabeça, devido a boemia desenfreada do dia anterior, havia tempos que não acordava tão bem disposto, quanto tão cedo. Abro a porta, mas não saio. Imagino que a alma caridosa, a senhora do quatrocentos e um, depois de sua caminhada matinal, fortuitamente, pôs o jornal no tapete da minha porta.

Espremi as laranjas, parti o mamão tirando-lhe as sementes com todo cuidado. Torrei o pão e fritei os ovos, mexidos... Comi, empanturrei-me!

Acendi um cigarro. Sentia o seu aroma. Aspirava fundo sua fumaça, saboreando-a na boca e soltando-a pelo nariz. Li o jornal de cabo a rabo. Demorei umas duas horas.

Dei uma bela cagada. Tomei banho, escovei os dentes.

Fui pra rua ainda melhor do que havia acordado.

Trotando pela calçada, pensava, então, que eu tinha muito afazeres...