Mentira, canalha! – gritou ela ao mesmo tempo em que atirava o sapato em minha direção.
A meia verdade canalha nunca rejeitou tanto uma vírgula! – pensava eu com o sapato na mão.
Hoje, depois de muito adormecido, acordei com certa volúpia de prazer. Estive doente. Certamente, sei que não estou totalmente curado. Não me cuido, nunca me cuidei. Estimo muito os dentistas. O agudo gemido da broca não me atormenta mais que o simples fato de não me tratar. Se não me trato é por maldade. Pura maldade. Não engano a mim mesmo, reconheço-me melhor do que ninguém. Sofro do dente e tanto melhor quando o mal piora. É patológico.
Cretino! – não apaguei. Em principio seria uma interlocução machadiana, quanta presunção. Tendo ávidos leitores, a ironia é o que sobra. - Voltemos...
Do que um homem honesto pode falar com mais prazer? De si mesmo. Pois bem, falei então de mim mesmo.
Já se ouve o esporro das fanfarras. Confete, serpentinas, água de cheiro e outros salamaleques estão em mãos – ou no ar. O furdunço carnavalesco, oficializado em 33 pela prefeitura do Rio de Janeiro, logo teve um monarca escolhido para representar as festividades. O sujeito era gordo e gaiato, explico.
Lendo por aí, descobri que o Rei Momo vem da mitologia grega. Filho do Sono e da Noite, Momo era tão zombeteiro e irreverente, sacaneou tanto os outros deuses, que foi expulso do Olimpo pelo próprio Zeus. Não queria fazer nada de útil senão comer, beber e fazer sacanagem. Foi deportado para a Terra.
Os confetes, muitos, enfeitavam o chão de tacos claros coloridamente. A idéia ingenuamente brilhante de Bebel, profissional da labuta mais antiga da terra, não era apenas a felicidade ascendente de uma noite. Eram provas de que fantasias – ou não - com expectativas diferentes e, de forma alguma pejorativa, podem conviver juntas.
As alegorias, treze ou mais - nesse caso não há melhor palavra para se aplicar - vão além da simples comparação da metáfora. Voltemos.
Papai Noel! – e não é o velho bordão usado para qualquer peripécia sexual, seria ultrajante para o velhinho abstinente – trajava suas botas e cinto preto, roupa devidamente vermelha junto à sacola de presentes. A noite mal começava e ela, isso mesmo, ela, já empunhava, numa mão, seu copo de cerveja e noutra o cigarro entre os dedos sob as luvas até então brancas. Estava quente e mesmo assim, como de hábito, fazia qualquer um sorrir como uma criança rasgando o embrulho do seu presente num dia natalino.
Ao seu lado, bolinhas pretas pingavam esporadicamente sobre o azul de sua roupa em contraste à suas madeixas loiras. Seu short – com um palmo de tecido – delineava seu ganha pão, com til ou não. Carla, nos seus primeiros tempos, já rebolava como uma veterana.
Na mesma ala, Rihanna e Lady Gaga desfilavam juntas. Sabe-se lá qualé a mais libertina. Da primeira, sobressaiam as ombreiras. Volta e outra, quando seu maiô branco era alavancado para cima, a famosa pata de camelo mancava pela avenida. Da segunda... Bem, semi-nua, envolta apenas por um metro e quinze de fita amarela e preta, daquelas na qual se cercam obras condenadas, Lady fumava sabendo que, além da lisergia, a cannabis lhe deixava com um tesão da porra.
Por falar em tesão, o baseado humano dava o ar de sua graça. Explico caros leitores. Eis que a porta se abre. Engessada pela seda, a pobre coitada mal conseguia andar. E era sempre requisitada pelos aficionados. De pé, de lado, deitada... Em qualquer posição, com muito fogo, carburava dos pés a cabeça. Nesse caso, vício e necessidade fisiológica se confundem. Na hierarquia das necessidades, antes da maconha, seu vício mesmo era fazer sexo. Janis Joplin se esbaldava.
A tanorexia – quase um palavrão proferido pela pura Dercy - pode definir-se como a obsessão por exibir, de forma constante, um tom de pele moreno. Para conseguir a tão desejada tonalidade, recorre-se a banhos de sol prolongadíssimos regados, como disse certa vez, a urucum diluído em suco de limão. Jesus tatuado no antebraço e uma barba milimetricamente feita o faziam, de fato, existir. Da zona oeste ou região serrana, como preferirem, o Muleque gostava de qualquer buraco.
Vinda das mesmas bandas, a Mucama estranhamente caucasiana dos olhos claros, tinha muitos embaraços sobre seus afazeres domésticos. Não sabia se bebia às escuras os vinhos do patrão, tirava a poeira dos brinquedos dele ou se pedia mesmo alforria. No final da festa, optou pelo pelo primeiro, depois o último.
As alegorias não queriam fazer nada de útil senão comer, beber e fazer sacatragens. Momo estava bem representado e ainda era dezembro.
O bistrô era dos mais aconchegantes. As mesas, com suas toalhas brancas sob os copos cheios, estavam dispostas lado a lado em algumas fileiras, sob meia luz, escondendo as poucas baias mais ao fundo. A madeira corrida até a metade da parede era uma espécie de castiçal para os quadros que ali brilhavam. Que ali penduraram.
Contava história da herança de família. Da família de músicos. Da chegada, nos anos quarenta, ao país estranho à sua miscigenação cultural.
Não me sentia estranho, então. Estava sozinho. Havia me acostumado a essa condição nos últimos meses. Meu último relacionamento havia sido tão intenso quanto rápido. Pensei bastante. Homens e mulheres são tão altruístas quanto hedonistas. Fizemos o favor de dar prazer um ao outro enquanto não fosse óbvio.
Sentava no bar, por isso. Não saía há tempos. Pedi um whisky com duas pedras de gelo. No final do bistrô, um palco era espaçoso o suficiente para abrigar a orquestra que no próximo gole iria tocar.
Saxofones, trompetes, trombones eram, para mim, estranhamente acompanhados de bongos, chekeres e congas. O contratempo da percussão era o prelúdio do que estava por vir.
Vivia o Nouvelle Vague dos anos 60 pelo seu andar. Era amoral. Não tinha notado sua presença. Pensava desenfreadamente no que teria a mais do que todas as outras que conhecia. Bem, justamente o que tem a mais é isso: Ela ainda me é desconhecida...
Planava sobre o salto alto de tal modo que não conseguia levantar os olhos. O vestido vermelho seguia o ritmo de seus passos. Tão linda andando que hesitaria vê-la parada a centímetros dos meus olhos.
E andava em minha direção. O batuque do bongo parou justamente quando estava ao meu lado. Em uma sincronia metafórica, o solo do sax alto era guiado por mim a cada palavra que dirigia a ela, enquanto os trombones e trompetes eram regidos pelas suas sobrancelhas debochadas. As minhas notas eram um emaranhado de indagações persuasivas. Era um jogo que começava a perder quando o sax tenor fluia como os graves de Ella Fitzgerald.
A situação, agora, era a inversa. Meio tom pra baixo, sua improvisação continha nada mais que solos evasivos. Estava com tesão. Queria que fosse mais uma dessas peças intermináveis. Uma vez roubado, novamente, sentia o prazer entrando pelos meus ouvidos. Mas estava errado quanto à peça.
Falou uma última coisa. Surpreso, arregalei os olhos. Saiu andando... Algumas são tão belas vistas de trás e, nesse caso não foi diferente, que me recuso a ultrapassá-la com medo de uma nova decepção. Jazz é sexy.
Eu não estou entendendo! – suas sobrancelhas arqueadas formavam ondas.
Sua aflição era justificável. Palavras desconexas desvendavam sentido algum em meio à conurbação musical das vozes que imperavam de todos os lados.
- vou ao banheiro – disse como se após um mergulho profundo, voltasse à superfície.
Tudo aquilo era novo. Para mim, não. Mas, não conseguia lembrar a ultima vez em que tentara ser tão claro sem tê-la deixado num breu infinito.
Sabe-se que nossa memória pode falhar. Sinto falta delas - me disseram noutro dia. Eu posso até me sentir confuso, indeciso e triste por minha memória já não ter a limpidez que um dia existira. Tento me lembrar dela, mas por estar tão longe, requerendo assim, grande esforço pra delinear sua silhueta, nauseia-me. Tudo isso, e afirmo tudo, causa-me não mais que estranheza. Contida, toda ela, na sensação de já ter vivido algo que fisicamente é impossível.