
As vezes imagino se diferente fosse...
O rubro sinestésico e, apenas isso, tonaliza umas das paredes da sala humildemente decorada. Como se fosse amarrada por uma criança em uma casa de bonecas, a cortina era de renda branca, feita à mão, acentuando, posteriormente, o mais belo disparate. A cena que não mais iria esquecer.
Em um canto, o rústico abajur de madeira e palha já aceso, fazia o reflexo vermelho fundir no igualmente quente sofá laranja. A perspectiva das cores, num apanhado descendente, terminava no chão de tacos claros, o meu cúmplice.
Olho para a cozinha e de um ângulo oblíquo vejo que Flora, ao som de qualquer MPB, esbanjando prazer, nutrido também por uns goles de cerveja, de frente para a pia de mármore, aprontava qualquer coisa. De um ângulo alto, imagino tomates sendo lavados, um a um, passando-lhes a palma da mão sob água corrente e os separando para o digno momento do séquito.
Volver.
O rebuliço havia começado há pouco. Poucos não eram, porém. Com a sala cheia e por isso, jogado espontaneamente no chão, assistia como um cinéfilo ansioso por sentar na frente e assim, ser o primeiro a ver a bela imagem; a ode da naturalidade.
Assisto o movimento pendular das pernas morenas que estavam inquietas e cruzadas. A esquerda sobre a direita e essa tocando piso de madeira, onde jaziam suas sandálias de couro. Seu cabelo longo, ondulado e negro era a moldura perfeita para os pequenos olhos castanho-escuros, nariz suavemente arrebitado e sorriso delirante.
De sua boca, numa sinédoque, saiam poemas em longas sentenças ao mesmo tempo em que gesticulava sinuosamente, como uma rendeira costurando a cortina. Balbuciava mais sorrisos. Jogava as madeixas para os lados. Contava mais prosa. Noutro pólo, seu pé direito tratava uma disputa inocente de gato e rato com a sandália. Os dedos rechonchudos tentavam falhamente segurar as alças de couro. A batalha se perpetuava a cada palavra.
Um retorno ascendente era impossível, petrificado estava. Como um voyeur, como Benigno contemplando Alicia, o que me restava era falar com ela.
Ficou muito bom com a foto da Penelope Cruz. hahhahahaha a escrita ta ótima, só da uma simplificada no vocabulário porque ta ficando muito rebuscado em algumas partes.
ResponderExcluiro mundo de Almodóvar é mesmo fantástico, porém tenha cuidado, porque nem tudo nesse mundo pode reluzir as cores que a película dele produz.
ResponderExcluirgosto da sua escrita, mas tenho que concordar com a pessoa acima.
de resto, meus parabéns por conseguir expor todo seu sentimento em algo tão frio, que é um blog.
continue a escrever. =)