sábado, 30 de outubro de 2010

Para mim, indiferente.

A linha é tênue entre a paciência e o desespero.

Olho pro relógio seguidamente, mas desta vez não há o onomatopéia odiado por todos os operários.

Eis que a inflexão sonora me impulsiona, de certo, pra baixo, numa ladeira infinita...

Em meio a tantos devaneios, não conseguia entender como sorrisos límpidos sobressaiam numa face empoeirada, corpos fétidos com pés em brasas.

Tinha me esquecido dos braços, que de tanto trabalhar, mais tarde, virariam abraços.

Ao contrário de todos eles, quando a sirene disparar, a solidão me espera.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Reciprocidade

Se pudéssemos ouvir nossos olhares, saberíamos...

paralelamente, em sentidos opostos,

há o mesmo brilho,

a mesma intensidade,

a mesma verdade,

absolutamente a mesma música.

deixa-me te exaltar aos olhos do universo,

aos meus ouvidos...

Vovô



A primeira vista era museu de cachaças. Olhando atentamente havia não mais que cinco pingas diferentes, eram muitas garrafas empoeiradas. Logo abaixo das infinitas prateleiras, num retrato fiel do que posteriormente descobriria, arames entrelaçados formavam um varal. Estendiam-se ali, salsichas, lingüiças e calabresas. Se tratando de uma mercearia, não poderiam faltar utensílios básicos. Caixas de fósforos, cigarros, copos e cerveja com posicionavam o retrato. O colorido ficava por conta dos biscoitos, balas e pirulitos, em primeiro plano, no balcão aonde o aguardava só.


Não passara muito tempo até o dono recepcionar-me. Saiu dos fundos, passando sob uma porta estreita. Em frente a ela, a sinuca ainda jazia verde. As botinas, claro, ainda com um pouco de barro molhado anunciavam sua chegada. As calças perfeitamente encardidas engoliam metade da camisa de botão. Por fim, um boné. Colocado da maneira que lhe coube, parecia-me uma coroa.


Sentia que um cumprimento caloroso me aguardava. Não foi diferente. Os braços abertos eram levados por um sorriso largo. Abraçou-me. Ajeitou os óculos, deu a volta no balcão e me ofereceu algo pra beber. Não poderia fazer tal desfeita. Era seu reino.

Pedi uma cerveja. Catou qualquer garrafa mais gelada, levou a pia e abriu com uma faca, servindo-lhe ali, como abridor. Sentou-se em minha frente, separados pelo colorido, percebi que estava um pouco ofegante.


- o senhor esta bem? – perguntei preocupadamente.

- oitenta e um anos pesam, mas nunca me senti tão bem. Respondeu com os olhos brilhando.


Me contou que uma de suas vacas estava prenha e prestes a parir. Morava em baixo da mercearia, a porta de entrada de um enorme sitio. Continuou:

- subi o pasto atrás da vaca. não deu outra, estava parindo, deitada, sofrendo...se não fosse por minha teimosia, teria perdido as duas – disse, ao mesmo tempo que arrancava um naco das lingüiças.


Entre um gole e outro, sorri. Balbuciei qualquer coisa, mas fui interrompido espirituosamente.

- descendo, sabe, esses capins enganam... pisei numa vala, rolei pasto abaixo ate parar no córrego que ali tinha. Aproveitei que estava calor, arranquei minha roupa pra tomar um banho de rio. Pelado!

As gargalhadas soaram-me de maneira sublime, tal qual aquele momento pra ele. Entendi que o diminutivo empregado, Zé, não era de longe pejorativo. Seu Zé, como por todos é conhecido, alem de Zé, é Zé Maria.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

se seu blog fosse um livro eu brigaria pela orelha assim...

O primeiro passo é sempre exorcizar próprios demônios.
Eis o Lucas agora. Poeta, por não o ser.
Um soco no estômago.
Uma voz inconveniente que faria existencialistas sorrirem.
Até eu sorri por saber que a vida, mesmo sendo dura, nos dá um acidente feliz.
O acaso de ter na vida um acidente como o Lucas.

Por Guilherme Façanha.

Lucas não gosta de pé.

Pé, por que pé tem chulé!
Envergonhado, porém, sem ter coragem de olhá-la nos olhos, se da conta...
São seus pés que agüentam o peso da sua alma,

esteiam sua anca,

sustentam teus seios.
Eles são a metáfora perfeita do tato,

o paradoxo do olhar.
Foram eles que a trouxeram aqui.

Alabama song

Gotas esparsas abriram a noite. Como não deveria ser, é inevitável. Estamos a mercê do tempo. Posteriormente, aprendi a gostar delas...


Caixas de som amontoavam-se ante a animosidade da platéia. As cores que, naquele momento nada representavam a sustentabilidade, piscavam. O verde, o vermelho, o azul e o amarelo dançavam conforme o barulho. Já inebriado, fui entorpecer meus sentidos. Tudo fica mais palatável e digerível desta forma. Lucas e a reverberação nunca tiveram tantos problemas.


A falta de espaço, diminuída ainda mais pela dança, ao mesmo tempo, sexy, espalhafatosa e vulgar, não o deixava correr pro bar mais próximo. Show me the way to the next whisky bar, Oh, don't ask why, Oh, don't ask why. Sussurrava Jim Morrison.


Estava completamente perdido. Mas não estava só. A reciprocidade começava ali, compartilhando o estranhamento.


Resmungou, a priori, qualquer coisa estúpida, antes de jorrar sua indignação quanto, quanto... Estava bem pertinho do bar, foi pegar a bendita cerveja.


Duas latinhas eram-lhes suficiente. Eram-lhe, no singular. Qualquer coisa estúpida fez desaparecer qualquer reciprocidade. A trilha sonora de uma epopéia circense não me parecia mais propicia.






Rubro




























Planos sensoriais se convergem.

Unicidade única.

Um cheiro, uma cor, um som, um objeto.

uma pessoa talvez...

Não há nada mais sinestésico que o vermelho.

Ruborização!

Não mais que segundos

Abrira. Fechara... Novamente aberta, Lucas percebeu que depois de um ínfimo momento escuro, jaziam duas metades. Límpidas, claras.
Não era ilusão.
Aventou a possibilidade: partir-se-ia ao meio? Não sabia, nem ao menos, se passaria meia pessoa de cada vez.
Queria gritar, não faltava vontade, não faltava desejo. As meias verdades, as meias mentiras convergir-se-iam nunca mais.
Não seria mais ele.
Em um lapso de loucura, saudável loucura, constatou que as metades, paradoxalmente, eram distintas e, nenhuma, perfeitamente bela.
Seu coração estava míope.
Os olhos dela eram esplêndidos.