sábado, 4 de agosto de 2018

Diáspora serrana


Gostaria de arrancar o coração do peito como se arranca uma camisa de linho que estancou o sangue da vida quase morta que andei levando. Seguidamente, usando como trapo e limpando apenas as coisas mais miúdas e talvez sem importância para os outros e não para mim.

E assim, quando se transformar em pedra ou pó, isto ficará esquecido como um livro torto em uma estante empoeirada. Dispensável como uma leitura que nunca acontecerá.  Desprezado, terei sempre dó, pois estará como um livro antigo que perdeu o interesse dos dias de hoje. Sem visitas. Uma humilhação diariamente entristecedora como a minha.

Quem sabe, em uma corrida louca para alinhar o desorganizado, preparando o adeus, a fim de tocar os fardos, poderei deixá-lo no lixo para que a natureza e a traças se encarreguem de recomeçar tudo. Até lá, a minha coragem admite apenas que estamos todos morrendo. Sendo assim, prefiro começar a morrer pelo coração.

No entanto, amarei sempre ele. Como amamos e lamentamos por aquilo que já não existe mais, como a história dos lugares que não voltam. Desta forma, sem visitas, isto perderá a memória. Talvez, quando nos separarmos, ele poderá ser livre.

Diria a todos que nasci sem ele. Ou parte dele.

Omar contemplava através da janela de seu quarto, o horizonte árido que lhe aferia tanta desilusão. Descansou a caneta suavemente sobre a mesa, deixou seu escrito de lado e refletia como a catástrofe o teria afetado.
A causa do sofrimento dele era desconhecida até aquele dia. No momento em que ficara estabelecido que seu lar fosse dividido em dois com muitos mais, a humilhação pela experiência da fuga e expulsão territorial fez sentido. Inversamente, para os outros, outrora também atormentados pelo não pertencimento, significava o início da salvação. O sofrimento dele começa quando o do algoz termina. Dessa forma, o encontro de duas catástrofes humanas não casuais, iria refundar a relação entre os eles. Investindo nas respectivas tragédias em prol do empoderamento e fortalecimento, em ambos os lados, o bloqueio e a deslegitimação da dor e do sofrimento alheio são percepções importantes e mutuamente excludentes.

A minha humilhação se consolida no longo processo de esvaziamento e destruição das memórias afetivas guardadas nele, sendo assim, basear-me-ia a reconstrução do meu lar a partir da experiência da dor e exílio? Como refundar algo sob o espectro da derrota e plenamente ocupado?

A cada dia findado a minha casa sofre com ocupações tão violentas, que mesmo meus irmãos exilados longe daqui são ainda mais vítimas do colonialismo deles que eu. São apátridas de sua própria pátria. A partir deste ponto, os atuais donos do lar deixam de serem figuras invisíveis e se tornam algozes sempre presentes.

Meu diafragma se contraía lentamente na medida em que ar, o mesmo que eu e eles respirávamos, era inspirado pelas narinas umidificadas pela tristeza e expirado com coragem, afinal, estamos todos morrendo.

As raras árvores pouco se mexiam no momento em Omar colocaria um ponto final em sua tormenta. Lembrara que seu pai havia colocado este nome, que pelo étimo árabe provinha de ámara, que por sua vez, significava homem cheio de vida. Naquele instante nada fazia mais sentido para ele que morrer pelo coração. Pelo seu lar.





sexta-feira, 20 de maio de 2016

Vintém do silêncio


 É estupido, dez vezes estupido! – ela reflete.
 E, então, em três palavras lhe expliquei, sem rodeios e piedade – e reitero piedade - que a dadiva do amor é fascinante, mas não vale um vintém.

 Faz-se o silêncio.

Não propriamente a sabedoria do silenciar, do não dizer por já haver dito tudo, por não ter nada mais que dizer. Mas a sabedoria do que não foi dito, do que ficou à costa ou talvez no centro, o que por ser mais denso não pôde subir à superfície do mar da linguagem.  Este escriba mergulha. Da mesma forma, não há silêncio sem sentido. Aquilo que não tem sentido é mudo como o fundo do oceano, mas não silencioso.

A conversa ganharia linhas de um monologo interminável.  Por que não me calava? Que homem presunçoso.  Queria que ela ficasse sabendo por si, sem mim, mas também não pela boca de outrem. Queria que ela própria adivinhasse quem eu era e me compreendesse.  E toda sua estima.  Sempre fui orgulhoso e metade para mim, nunca era inteiro.

Admitamos que, dar a entender, bajular e implorar afeição, seria o mesmo que mendigar.  

Aliás, por que falo disso?
Existem nas memórias de todo homem coisas que ele só revela aos amigos. Outras, nem mesmo aos mais chegados. Por fim, coisas que eu mesmo tenho medo de descobrir. E, de repente, vem essa garota. Não conseguia pegar no sono. E como poderia, se um tipo de pancada martela minha cabeça?

terça-feira, 23 de junho de 2015

Dançando no escuro.


O passo apressado sobre o piso de madeira compunha, juntamente com o tilintar do aparelho, a epopeia sonora de cinco segundos que, não antes das nove horas diárias de labuta, haveria de se repetir algumas vezes.

O burburinho ia aumentando na medida em que as palavras eram proferidas ao telefone, carregadas com imposições, outrora combinadas, sempre agudas e de maneira irritante.

Tenho uma relação com o mundo mais auditiva do que visual. Explico:

Recentemente, revisitava um filme europeu dirigido pelo controverso Lars Von Trier, precursor do movimento Dogma 95, de nome homônimo ao título que este escriba dá para este arrazoado. Nele, Bjork encena Selma, a mártir feminina do diretor. A história é, antes de tudo, sobre a devoção de uma mãe. Ela está ficando cega e se sente culpada por ter tido uma criança que também carrega o gene da cegueira. No enredo, há assassinato, crueldades do destino e pena de morte. Uma tragédia musical, na qual a heroína trama em seus pensamentos, sempre no auge do desespero, sublimes sequências musicais e coreografadas.

É aí, meus caros, que o balacobaco ganha, para mim, contornos reais e nada dramáticos.

Reconhecer uma onomatopeia, a primeira vista, não é fácil. Trata-se de um fenômeno linguístico, dada a formação de palavras pela imitação de sons naturais. A beleza, contudo, consiste na sua leitura e imediata reprodução do som. E vice-versa. Voltemos.

Selma, em sua primeira catarse musical na película, se faz dos ruídos - onomatopeias - constantes e ritmados das máquinas em que ela trabalha, como operária em uma fábrica de pias, que se misturam organicamente ao longo da canção, não somente para escapar daquela realidade, mas da nossa, da minha.

E quando aquele momento de felicidade tem seu fim - o som, a letra, a fuga,por fim, a música - o seu efeito é devastador.





quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Hoje, depois de muito adormecido, acordei com certa volúpia de prazer. Estive doente. Certamente, sei que não estou totalmente curado. Não me cuido, nunca me cuidei. Estimo muito os dentistas. O agudo gemido da broca não me atormenta mais que o simples fato de não me tratar. Se não me trato é por maldade. Pura maldade. Não engano a mim mesmo, reconheço-me melhor do que ninguém. Sofro do dente e tanto melhor quando o mal piora. É patológico.

Cretino! – não apaguei. Em principio seria uma interlocução machadiana, quanta presunção. Tendo ávidos leitores, a ironia é o que sobra. - Voltemos...

Do que um homem honesto pode falar com mais prazer?
De si mesmo. Pois bem, falei então de mim mesmo.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Dezembro, Momo e Carnaval

Já se ouve o esporro das fanfarras. Confete, serpentinas, água de cheiro e outros salamaleques estão em mãos – ou no ar. O furdunço carnavalesco, oficializado em 33 pela prefeitura do Rio de Janeiro, logo teve um monarca escolhido para representar as festividades. O sujeito era gordo e gaiato, explico.

Lendo por aí, descobri que o Rei Momo vem da mitologia grega. Filho do Sono e da Noite, Momo era tão zombeteiro e irreverente, sacaneou tanto os outros deuses, que foi expulso do Olimpo pelo próprio Zeus. Não queria fazer nada de útil senão comer, beber e fazer sacanagem. Foi deportado para a Terra.

Os confetes, muitos, enfeitavam o chão de tacos claros coloridamente. A idéia ingenuamente brilhante de Bebel, profissional da labuta mais antiga da terra, não era apenas a felicidade ascendente de uma noite. Eram provas de que fantasias – ou não - com expectativas diferentes e, de forma alguma pejorativa, podem conviver juntas.

As alegorias, treze ou mais - nesse caso não há melhor palavra para se aplicar - vão além da simples comparação da metáfora. Voltemos.

Papai Noel! – e não é o velho bordão usado para qualquer peripécia sexual, seria ultrajante para o velhinho abstinente – trajava suas botas e cinto preto, roupa devidamente vermelha junto à sacola de presentes. A noite mal começava e ela, isso mesmo, ela, já empunhava, numa mão, seu copo de cerveja e noutra o cigarro entre os dedos sob as luvas até então brancas. Estava quente e mesmo assim, como de hábito, fazia qualquer um sorrir como uma criança rasgando o embrulho do seu presente num dia natalino.

Ao seu lado, bolinhas pretas pingavam esporadicamente sobre o azul de sua roupa em contraste à suas madeixas loiras. Seu short – com um palmo de tecido – delineava seu ganha pão, com til ou não. Carla, nos seus primeiros tempos, já rebolava como uma veterana.

Na mesma ala, Rihanna e Lady Gaga desfilavam juntas. Sabe-se lá qualé a mais libertina. Da primeira, sobressaiam as ombreiras. Volta e outra, quando seu maiô branco era alavancado para cima, a famosa pata de camelo mancava pela avenida. Da segunda... Bem, semi-nua, envolta apenas por um metro e quinze de fita amarela e preta, daquelas na qual se cercam obras condenadas, Lady fumava sabendo que, além da lisergia, a cannabis lhe deixava com um tesão da porra.

Por falar em tesão, o baseado humano dava o ar de sua graça. Explico caros leitores.
Eis que a porta se abre. Engessada pela seda, a pobre coitada mal conseguia andar. E era sempre requisitada pelos aficionados. De pé, de lado, deitada... Em qualquer posição, com muito fogo, carburava dos pés a cabeça.
Nesse caso, vício e necessidade fisiológica se confundem. Na hierarquia das necessidades, antes da maconha, seu vício mesmo era fazer sexo. Janis Joplin se esbaldava.

A tanorexia – quase um palavrão proferido pela pura Dercy - pode definir-se como a obsessão por exibir, de forma constante, um tom de pele moreno. Para conseguir a tão desejada tonalidade, recorre-se a banhos de sol prolongadíssimos regados, como disse certa vez, a urucum diluído em suco de limão. Jesus tatuado no antebraço e uma barba milimetricamente feita o faziam, de fato, existir. Da zona oeste ou região serrana, como preferirem, o Muleque gostava de qualquer buraco.

Vinda das mesmas bandas, a Mucama estranhamente caucasiana dos olhos claros, tinha muitos embaraços sobre seus afazeres domésticos. Não sabia se bebia às escuras os vinhos do patrão, tirava a poeira dos brinquedos dele ou se pedia mesmo alforria. No final da festa, optou pelo pelo primeiro, depois o último.

As alegorias não queriam fazer nada de útil senão comer, beber e fazer sacatragens. Momo estava bem representado e ainda era dezembro.

A quizumba está armada. É carnaval.



terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Onde Jazz meu coração.

O bistrô era dos mais aconchegantes. As mesas, com suas toalhas brancas sob os copos cheios, estavam dispostas lado a lado em algumas fileiras, sob meia luz, escondendo as poucas baias mais ao fundo. A madeira corrida até a metade da parede era uma espécie de castiçal para os quadros que ali brilhavam. Que ali penduraram.

Contava história da herança de família. Da família de músicos. Da chegada, nos anos quarenta, ao país estranho à sua miscigenação cultural.

Não me sentia estranho, então. Estava sozinho. Havia me acostumado a essa condição nos últimos meses. Meu último relacionamento havia sido tão intenso quanto rápido. Pensei bastante. Homens e mulheres são tão altruístas quanto hedonistas. Fizemos o favor de dar prazer um ao outro enquanto não fosse óbvio.

Sentava no bar, por isso. Não saía há tempos. Pedi um whisky com duas pedras de gelo. No final do bistrô, um palco era espaçoso o suficiente para abrigar a orquestra que no próximo gole iria tocar.

Saxofones, trompetes, trombones eram, para mim, estranhamente acompanhados de bongos, chekeres e congas. O contratempo da percussão era o prelúdio do que estava por vir.

Vivia o Nouvelle Vague dos anos 60 pelo seu andar. Era amoral. Não tinha notado sua presença. Pensava desenfreadamente no que teria a mais do que todas as outras que conhecia. Bem, justamente o que tem a mais é isso: Ela ainda me é desconhecida...

Planava sobre o salto alto de tal modo que não conseguia levantar os olhos. O vestido vermelho seguia o ritmo de seus passos. Tão linda andando que hesitaria vê-la parada a centímetros dos meus olhos.

E andava em minha direção. O batuque do bongo parou justamente quando estava ao meu lado. Em uma sincronia metafórica, o solo do sax alto era guiado por mim a cada palavra que dirigia a ela, enquanto os trombones e trompetes eram regidos pelas suas sobrancelhas debochadas. As minhas notas eram um emaranhado de indagações persuasivas. Era um jogo que começava a perder quando o sax tenor fluia como os graves de Ella Fitzgerald.

A situação, agora, era a inversa. Meio tom pra baixo, sua improvisação continha nada mais que solos evasivos. Estava com tesão. Queria que fosse mais uma dessas peças intermináveis. Uma vez roubado, novamente, sentia o prazer entrando pelos meus ouvidos. Mas estava errado quanto à peça.

Falou uma última coisa. Surpreso, arregalei os olhos. Saiu andando...
Algumas são tão belas vistas de trás e, nesse caso não foi diferente, que me recuso a ultrapassá-la com medo de uma nova decepção. Jazz é sexy.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Jamais vu

Eu não estou entendendo! – suas sobrancelhas arqueadas formavam ondas.

Sua aflição era justificável. Palavras desconexas desvendavam sentido algum em meio à conurbação musical das vozes que imperavam de todos os lados.

- vou ao banheiro – disse como se após um mergulho profundo, voltasse à superfície.

Tudo aquilo era novo. Para mim, não. Mas, não conseguia lembrar a ultima vez em que tentara ser tão claro sem tê-la deixado num breu infinito.

Sabe-se que nossa memória pode falhar. Sinto falta delas - me disseram noutro dia. Eu posso até me sentir confuso, indeciso e triste por minha memória já não ter a limpidez que um dia existira. Tento me lembrar dela, mas por estar tão longe, requerendo assim, grande esforço pra delinear sua silhueta, nauseia-me. Tudo isso, e afirmo tudo, causa-me não mais que estranheza. Contida, toda ela, na sensação de já ter vivido algo que fisicamente é impossível.