Gostaria de arrancar o coração do
peito como se arranca uma camisa de linho que estancou o sangue da vida quase
morta que andei levando. Seguidamente, usando como trapo e limpando apenas as
coisas mais miúdas e talvez sem importância para os outros e não para mim.
E assim, quando se transformar em
pedra ou pó, isto ficará esquecido como um livro torto em uma estante
empoeirada. Dispensável como uma leitura que nunca acontecerá. Desprezado, terei sempre dó, pois estará como
um livro antigo que perdeu o interesse dos dias de hoje. Sem visitas. Uma
humilhação diariamente entristecedora como a minha.
Quem sabe, em uma corrida louca
para alinhar o desorganizado, preparando o adeus, a fim de tocar os fardos,
poderei deixá-lo no lixo para que a natureza e a traças se encarreguem de
recomeçar tudo. Até lá, a minha coragem admite apenas que estamos todos
morrendo. Sendo assim, prefiro começar a morrer pelo coração.
No entanto, amarei sempre ele.
Como amamos e lamentamos por aquilo que já não existe mais, como a história dos
lugares que não voltam. Desta forma, sem visitas, isto perderá a memória.
Talvez, quando nos separarmos, ele poderá ser livre.
Diria a todos que nasci sem ele.
Ou parte dele.
Omar contemplava através da janela
de seu quarto, o horizonte árido que lhe aferia tanta desilusão. Descansou a
caneta suavemente sobre a mesa, deixou seu escrito de lado e refletia como a
catástrofe o teria afetado.
A causa do sofrimento dele era
desconhecida até aquele dia. No momento em que ficara estabelecido que seu lar
fosse dividido em dois com muitos mais, a humilhação pela experiência da fuga e
expulsão territorial fez sentido. Inversamente, para os outros, outrora também
atormentados pelo não pertencimento, significava o início da salvação. O
sofrimento dele começa quando o do algoz termina. Dessa forma, o encontro de
duas catástrofes humanas não casuais, iria refundar a relação entre os eles.
Investindo nas respectivas tragédias em prol do empoderamento e fortalecimento,
em ambos os lados, o bloqueio e a deslegitimação da dor e do sofrimento alheio
são percepções importantes e mutuamente excludentes.
A minha humilhação se consolida
no longo processo de esvaziamento e destruição das memórias afetivas guardadas
nele, sendo assim, basear-me-ia a reconstrução do meu lar a partir da
experiência da dor e exílio? Como refundar algo sob o espectro da derrota e
plenamente ocupado?
A cada dia findado a minha casa
sofre com ocupações tão violentas, que mesmo meus irmãos exilados longe daqui
são ainda mais vítimas do colonialismo deles que eu. São apátridas de sua
própria pátria. A partir deste ponto, os atuais donos do lar deixam de serem
figuras invisíveis e se tornam algozes sempre presentes.
Meu diafragma se contraía lentamente
na medida em que ar, o mesmo que eu e eles respirávamos, era inspirado pelas
narinas umidificadas pela tristeza e expirado com coragem, afinal, estamos
todos morrendo.
As raras árvores pouco se mexiam
no momento em Omar colocaria um ponto final em sua tormenta. Lembrara que seu
pai havia colocado este nome, que pelo étimo árabe provinha de ámara, que por
sua vez, significava homem cheio de vida. Naquele instante nada fazia mais
sentido para ele que morrer pelo coração. Pelo seu lar.