sexta-feira, 20 de maio de 2016

Vintém do silêncio


 É estupido, dez vezes estupido! – ela reflete.
 E, então, em três palavras lhe expliquei, sem rodeios e piedade – e reitero piedade - que a dadiva do amor é fascinante, mas não vale um vintém.

 Faz-se o silêncio.

Não propriamente a sabedoria do silenciar, do não dizer por já haver dito tudo, por não ter nada mais que dizer. Mas a sabedoria do que não foi dito, do que ficou à costa ou talvez no centro, o que por ser mais denso não pôde subir à superfície do mar da linguagem.  Este escriba mergulha. Da mesma forma, não há silêncio sem sentido. Aquilo que não tem sentido é mudo como o fundo do oceano, mas não silencioso.

A conversa ganharia linhas de um monologo interminável.  Por que não me calava? Que homem presunçoso.  Queria que ela ficasse sabendo por si, sem mim, mas também não pela boca de outrem. Queria que ela própria adivinhasse quem eu era e me compreendesse.  E toda sua estima.  Sempre fui orgulhoso e metade para mim, nunca era inteiro.

Admitamos que, dar a entender, bajular e implorar afeição, seria o mesmo que mendigar.  

Aliás, por que falo disso?
Existem nas memórias de todo homem coisas que ele só revela aos amigos. Outras, nem mesmo aos mais chegados. Por fim, coisas que eu mesmo tenho medo de descobrir. E, de repente, vem essa garota. Não conseguia pegar no sono. E como poderia, se um tipo de pancada martela minha cabeça?