terça-feira, 23 de junho de 2015

Dançando no escuro.


O passo apressado sobre o piso de madeira compunha, juntamente com o tilintar do aparelho, a epopeia sonora de cinco segundos que, não antes das nove horas diárias de labuta, haveria de se repetir algumas vezes.

O burburinho ia aumentando na medida em que as palavras eram proferidas ao telefone, carregadas com imposições, outrora combinadas, sempre agudas e de maneira irritante.

Tenho uma relação com o mundo mais auditiva do que visual. Explico:

Recentemente, revisitava um filme europeu dirigido pelo controverso Lars Von Trier, precursor do movimento Dogma 95, de nome homônimo ao título que este escriba dá para este arrazoado. Nele, Bjork encena Selma, a mártir feminina do diretor. A história é, antes de tudo, sobre a devoção de uma mãe. Ela está ficando cega e se sente culpada por ter tido uma criança que também carrega o gene da cegueira. No enredo, há assassinato, crueldades do destino e pena de morte. Uma tragédia musical, na qual a heroína trama em seus pensamentos, sempre no auge do desespero, sublimes sequências musicais e coreografadas.

É aí, meus caros, que o balacobaco ganha, para mim, contornos reais e nada dramáticos.

Reconhecer uma onomatopeia, a primeira vista, não é fácil. Trata-se de um fenômeno linguístico, dada a formação de palavras pela imitação de sons naturais. A beleza, contudo, consiste na sua leitura e imediata reprodução do som. E vice-versa. Voltemos.

Selma, em sua primeira catarse musical na película, se faz dos ruídos - onomatopeias - constantes e ritmados das máquinas em que ela trabalha, como operária em uma fábrica de pias, que se misturam organicamente ao longo da canção, não somente para escapar daquela realidade, mas da nossa, da minha.

E quando aquele momento de felicidade tem seu fim - o som, a letra, a fuga,por fim, a música - o seu efeito é devastador.