terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Onde Jazz meu coração.

O bistrô era dos mais aconchegantes. As mesas, com suas toalhas brancas sob os copos cheios, estavam dispostas lado a lado em algumas fileiras, sob meia luz, escondendo as poucas baias mais ao fundo. A madeira corrida até a metade da parede era uma espécie de castiçal para os quadros que ali brilhavam. Que ali penduraram.

Contava história da herança de família. Da família de músicos. Da chegada, nos anos quarenta, ao país estranho à sua miscigenação cultural.

Não me sentia estranho, então. Estava sozinho. Havia me acostumado a essa condição nos últimos meses. Meu último relacionamento havia sido tão intenso quanto rápido. Pensei bastante. Homens e mulheres são tão altruístas quanto hedonistas. Fizemos o favor de dar prazer um ao outro enquanto não fosse óbvio.

Sentava no bar, por isso. Não saía há tempos. Pedi um whisky com duas pedras de gelo. No final do bistrô, um palco era espaçoso o suficiente para abrigar a orquestra que no próximo gole iria tocar.

Saxofones, trompetes, trombones eram, para mim, estranhamente acompanhados de bongos, chekeres e congas. O contratempo da percussão era o prelúdio do que estava por vir.

Vivia o Nouvelle Vague dos anos 60 pelo seu andar. Era amoral. Não tinha notado sua presença. Pensava desenfreadamente no que teria a mais do que todas as outras que conhecia. Bem, justamente o que tem a mais é isso: Ela ainda me é desconhecida...

Planava sobre o salto alto de tal modo que não conseguia levantar os olhos. O vestido vermelho seguia o ritmo de seus passos. Tão linda andando que hesitaria vê-la parada a centímetros dos meus olhos.

E andava em minha direção. O batuque do bongo parou justamente quando estava ao meu lado. Em uma sincronia metafórica, o solo do sax alto era guiado por mim a cada palavra que dirigia a ela, enquanto os trombones e trompetes eram regidos pelas suas sobrancelhas debochadas. As minhas notas eram um emaranhado de indagações persuasivas. Era um jogo que começava a perder quando o sax tenor fluia como os graves de Ella Fitzgerald.

A situação, agora, era a inversa. Meio tom pra baixo, sua improvisação continha nada mais que solos evasivos. Estava com tesão. Queria que fosse mais uma dessas peças intermináveis. Uma vez roubado, novamente, sentia o prazer entrando pelos meus ouvidos. Mas estava errado quanto à peça.

Falou uma última coisa. Surpreso, arregalei os olhos. Saiu andando...
Algumas são tão belas vistas de trás e, nesse caso não foi diferente, que me recuso a ultrapassá-la com medo de uma nova decepção. Jazz é sexy.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Jamais vu

Eu não estou entendendo! – suas sobrancelhas arqueadas formavam ondas.

Sua aflição era justificável. Palavras desconexas desvendavam sentido algum em meio à conurbação musical das vozes que imperavam de todos os lados.

- vou ao banheiro – disse como se após um mergulho profundo, voltasse à superfície.

Tudo aquilo era novo. Para mim, não. Mas, não conseguia lembrar a ultima vez em que tentara ser tão claro sem tê-la deixado num breu infinito.

Sabe-se que nossa memória pode falhar. Sinto falta delas - me disseram noutro dia. Eu posso até me sentir confuso, indeciso e triste por minha memória já não ter a limpidez que um dia existira. Tento me lembrar dela, mas por estar tão longe, requerendo assim, grande esforço pra delinear sua silhueta, nauseia-me. Tudo isso, e afirmo tudo, causa-me não mais que estranheza. Contida, toda ela, na sensação de já ter vivido algo que fisicamente é impossível.